8# ARTES E ESPETCULOS 27.11.13

     8#1 EXPOSIO  NUDEZ COM H
     8#2 LIVROS  A AUTPSIA DA FRAUDE
     8#3 TELEVISO  OSCAR PARA O VILO
     8#4 CINEMA  SEM RESPOSTA
     8#5 MSICA  PRAZERES DA PINDABA
     8#6 VEJA RECOMENDA
     8#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     8#8 J.R. GUZZO  ALGO EST ERRADO

8#1 EXPOSIO  NUDEZ COM H
A mostra Masculin/Masculin, do Museu dOrsay, combina ousadia e trabalhos de mestres. Mas no  a nica a usar corpos despidos e sexo para atrair visitantes.
MARIO MENDES, DE PARIS

     Uma longa fila serpenteia  entrada do Museu dOrsay, em Paris. Alm da horda costumeira de turistas que visitam a instituio diariamente  mais como uma das muitas atraes da cidade do que propriamente para apreciar seu incrvel acervo, cujo ponto alto  a clebre coleo de pinturas impressionistas , h os muitos curiosos que foram atrados pelos cartazes espalhados pela cidade. Dos outdoors nas ruas aos anncios nas estaes de metr, l est Mercrio  uma alegoria feita pela dupla francesa de fotgrafos Pierre e Gilles, famosa por sua obra irreverente e ertica. De costas, musculoso, porte atltico, segurando um cetro e trajando apenas um capacete, o deus romano convida para a mostra Masculin/Masculin, em cartaz no museu parisiense at 2 de janeiro de 2014.
     A direo do DOrsay informa, entusiasmada, que desde a abertura da exposio, em setembro, cerca de 4500 pessoas passam por l diariamente, trs vezes mais que a visitao registrada no mesmo perodo do ano passado. Com o subttulo O Homem Nu na Arte de 1800 aos Nossos Dias, a mostra rene mais de 200 obras, entre pintura, escultura, desenho e fotografia, com a assinatura tanto de luminares como Rodin, Czanne e Picasso, quanto de modernistas como Egon Schiele e contemporneos como Francis Bacon e David Hockney. Ela inclui tambm os provocadores de sempre: os fotgrafos Robert Mapplethorpe e David LaChapelle. O objetivo  explorar a percepo do corpo, a permisso para sua representao, sua intimidade, a relao entre os sexos e a evoluo da masculinidade, diz Tobias Natter, um dos curadores e tambm diretor do Museu Leopold, de Viena, onde uma exposio com o mesmo tema, embora de menor flego, garantiu casa lotada enquanto permaneceu em cartaz, entre outubro de 2012 e maro deste ano.
     Claro que a polmica e certo gosto pelo succs de scandale foram levados em conta pela direo do DOrsay  desde o ttulo, alis, o qual faz oposio a Feminine-Masculine, clebre mostra do Centro Pompidou que, em 1995, se dedicou a compor um painel artstico do sexo no sculo XX com nfase na nudez feminina, exposta sem reservas, conforme Natter. Para Amlie Hardivililer, porta-voz do Museu DOrsay, o conceito da exposio tem a ver com o debate poltico que est nas ruas  a inflamada discusso entre defensores e opositores do casamento igualitrio que tomou a Frana. Mesmo assim, ela pondera: A ideia no  provocar, fazer militncia ou escandalizar. Trata-se apenas de uma exposio atrevida.
     H que dizer que, apesar de o homoerotismo transbordar em algumas obras e a homossexualidade ser um de seus temas, Masculin/Masculin no est centrada no assunto. Alis, uma das crticas feitas por intelectuais e grupos ligados  militncia homossexual  justamente a de que a mostra no suscita discusses sobre costumes ou poltica de gnero. Outra crtica  esta mais espinhosa  se refere  presena de trabalhos do alemo Arno Breker, um favorito do Terceiro Reich. E um crtico ingls reclamou da quantidade excessiva, segundo ele, de artistas franceses.
     As obras esto divididas em cinco grandes grupos: O Ideal Clssico abrange as alegorias acadmicas da Antiguidade, como Le Berger Pris, pintada por Jean-Baptiste Desmarais em 1787  e tambm usada como cartaz publicitrio adicional da mostra. Lutteurs, quadro de Alexandre Falguire de 1875, representa um tema muito caro  arte do sculo XIX, o corpo masculino como smbolo de virilidade e firmeza de carter, e faz parte do segmento Nus Heroicos. As primeiras investidas fotogrficas e o realismo na pintura esto em Nuda Veritas, enquanto a vida ao ar livre  celebrada em Im Natur. O erotismo aparece em O Objeto de Desejo, nica rea da exposio onde se v um aviso de que o teor de certas obras pode ferir a suscetibilidade de certos visitantes, sobretudo do pblico mais jovem. Mas  comum ver famlias com crianas e adolescentes passeando tranquilamente entre os pelados. Outra curiosidade  a presena de celebridades entre os nus. L esto uma esttua do escritor Honor de Balzac exibindo gloriosa pana, o estilista Yves Saint-Laurent em um instantneo lnguido dos anos 1970 e a nudez nada sutil do rapper Eminem, segurando uma faiscante banana de dinamite.
     Foi-se, enfim, o tempo do tabu, quando a Academia Francesa de Arte recomendava a seus estudantes que retratassem o rgo genital masculino em dimenses apropriadas, para no ofender o pudor feminino nem menosprezar o orgulho viril. Ainda mais pudica, no sculo XIX a rainha Vitria retornou a um costume do sculo XVI: recomendou que se providenciasse uma folha de parreira para cobrir a nudez do Davi de Michelangelo, quando a obra-prima foi apresentada em Londres.
     O Museu dOrsay no  o nico a recorrer ao apelo certeiro da nudez e do sexo a fim de atrair visitantes. Tambm em Paris, o Museu Jacquemart-Andr exibe at 20 de janeiro a mostra Desejos & Volpia na Era Vitoriana, reunindo obras de vrios pintores do perodo e com nfase no corpo feminino, vestido e despido. Do outro lado do Canal da Mancha, em Londres, o Museu Britnico vai de Shunga: Sexo e Prazer na Arte Japonesa (at 5 de janeiro, com entrada proibida para menores de 16 anos), em que exibe sua at agora indita coleo de gravuras erticas orientais datadas do sculo XVII. O curador Tobias Natter, entretanto, insiste na singularidade de Masculin/Masculin: Nossa mostra  ecltica e celebra tanto a beleza quanto a dor do homem nu, provocando um curto-circuito na percepo do pblico, teoriza ele. Uma exposio que, como exemplifica o ttulo de um de seus segmentos, fica entre o estdio e o Jardim do den.


8#2 LIVROS  A AUTPSIA DA FRAUDE
Em Dcada Perdida, o historiador Marco Antonio Villa desmonta o enredo de embustes cantado por Lula e pelo PT.
AUGUSTO NUNES

 muito milagre para pouco verso, constatam os brasileiros sensatos depois de confrontados com a letra do samba-enredo que canta as faanhas fabricadas pelo governo do PT entre janeiro de 2003 e dezembro de 2012. Escalado pela Divina Providncia para dar um jeito na herana maldita de FHC, Lula s precisou de oito anos para fazer o que no fora feito em 500  e repassar a Dilma Rousseff uma Pasrgada materializada por Oscar Niemeyer. E a sucessora s precisou de meio mandato para passar a presidir uma Noruega com praia, sol de sobra, Carnaval e futebol pentacampeo. O nico problema  que, at agora, nenhum habitante do pas real conseguiu enxergar esse prodgio poltico-administrativo. Nem vai conseguir, avisa a leitura de Dcada Perdida  Dez Anos de PT no Poder (Record; 280 pginas; 45 reais), do historiador Marco Antonio Vila. O Brasil Maravilha registrado em cartrio nunca existiu fora da imaginao dos pais, parteiros e tutores do embuste mais longevo da era republicana.
     Para desmontar a tapeao, bastou a Villa exumar verdades reiteradamente assassinadas desde o discurso de posse do produtor, diretor, roteirista e principal personagem da pera dos farsantes. Diante das ameaas  soberania nacional, da precariedade avassaladora da segurana pblica, do desrespeito aos mais velhos e do desalento dos mais jovens; diante do impasse econmico, social e moral do pas, a sociedade brasileira escolheu mudar e comeou, ela mesma, a promover a mudana necessria, descobriu Luiz Incio Lula da Silva no dia em que substituiu Fernando Henrique Cardoso. Foi para isso que o povo brasileiro me elegeu presidente da Repblica. A apario do Homem Providencial na terra devastada, sem rumo e rf de estadistas abriu o cortejo de bazfias, bravatas e invencionices que, para perplexidade dos que veem as coisas como as coisas so, parece ainda longe do fim.
     Nunca antes neste pas tanta gente foi iludida por tanto tempo, comprova a didtica reconstituio conduzida por Villa. Nunca se mentiu to descaradamente sem que um nico e escasso poltico oposicionista se animasse a denunciar, sem rodeios nem eufemismos, a nudez obscena do reizinho. O Evangelho segundo Lula enfileira pelo menos um assombro por ano. J no primeiro, o salvador da ptria em perigo conferiu a todos os viventes aqui nascidos ou naturalizados o direito de comer trs vezes por dia. E a fome acabou. No segundo com a reinveno do Bolsa Famlia, estatizou a esmola. E a pobreza acabou. No pde fazer muito em 2005 porque teve de concentrar-se na misso de ensinar a milhes de eleitores que o mensalo nunca existiu e livrar os companheiros gatunos do embarque no camburo que s chegaria em 2013.
     Indultado liminarmente pela oposio e poupado pela Justia, o camel de si mesmo atravessou os anos seguintes tentando esgotar o estoque de proezas fictcias. Festejou o advento da autossuficincia na produo de petrleo, rebaixou a marolinha o tsunami econmico, proibiu a crise americana de dar as caras por aqui, condenou a seca do Nordeste a morrer afogada nas guas transpostas do Rio So Francisco, criou um sistema de sade perto da perfeio e inaugurou mais universidades que todos os doutores que o precederam no cargo, fora o resto. E sem contar o que andou fazendo depois de nomear-se conselheiro do mundo. Dilma teve de conformar-se com o pouco que faltava. Fantasiou de concesso a privatizao dos aeroportos, por exemplo. Por falta de fregueses, criou o leilo de um lance s para desencalhar o pr-sal. Acrescentou alguns metros  Ferrovia do Sarney. Obrigada a cuidar da inflao em alta e do PIB em baixa, deixou para depois o trem-bala mais lento do mundo.
     Haja vigarice, gritam os fatos e estatsticas que Villa escancara numa narrativa linear irrefutvel e contundente. O crescimento econmico do governo Dilma s no perde em raquitismo para os de Floriano Peixoto e Fernando Collor. O partido aparelhou o Estado, adverte. No s pelos seus 23.000 cargos de nomeao direta. Transformou as empresas e bancos estatais, e seus poderosos fundos de penso, em instrumentos para o PT e sua ampla clientela.  Estabeleceu uma rede de controle e privilgios nunca vista na nossa histria. Em um pas invertebrado, o partido desmantelou o que havia de organizado atravs de cooptao estatal. Foram distribudos milhes de reais a sindicatos, associaes, ONGs, intelectuais, jornalistas chapa-branca, criando assim uma rede de proteo aos desmandos do governo: so os tontons macoures do lulopetismo, os que esto sempre prontos para a ao. O Brasil perdeu outra dcada. O PT ficou no lucro. E Lula ganhou mais do que todos.



8#3 TELEVISO  OSCAR PARA O VILO
O show de Flix na cena que marcou o pice de Amor  Vida arrancou a novela do marasmo e da audincia tbia  e confirmou o talento do ator Mateus Solano.
BRUNO MEIER

     Depois de arrastar uma cadeira, Felix sentou-se, cruzou as pernas e declarou, com voz firme, seus sentimentos pela irm: Eu nunca gostei de voc, Paloma. Nunca. Naquele momento, o ator Mateus Solano mandava s favas toda a marcao de cena que havia sido ensaiada antes, com todo o elenco. Na hora eu pensei: O que eu estou fazendo?, diz o prprio Solano. O diretor-geral da novela, Mauro Mendona Filho, que acompanhava a cena de uma sala de edio ao lado do estdio, tomou um susto. Caramba, exclamou. Mas deixou a equipe seguir gravando  em um lance pouco usual nas novelas da Globo, no havia cmera esttica: todas as quatro cmeras estavam na mo dos operadores, o que contribuiu para a energia nervosa da cena. Mendona define o gesto de Solano em termos apropriadamente teatrais: Ao pegar a cadeira, Mateus saiu do teatro de arena para brilhar num palco italiano. Exibida na segunda-feira passada, a cena em que os malfeitos de Flix foram afinal revelados a seus familiares foi o pice dramtico de Amor  Vida, novela que estacionara num longo perodo de marasmo. Conforme o Brasil sabia desde a estreia, por inveja e por receio de ver diminudo seu quinho do patrimnio familiar, o vilo jogou a filha recm-nascida da mocinha Paloma (Paolla Oliveira) em uma caamba de lixo. Colocado na parede pelo pai, Csar (Antonio Fagundes), Flix afinal confessa para a irm: Eu joguei aquela ratinha fora e jogaria de novo. No deu outra: 43 pontos no Ibope na Grande So Paulo. Isso numa novela que, nos 156 captulos anteriores, tinha mdia de 35 pontos, marca que preocupava a emissora.
     Na sinopse original, esse histrinico acerto de contas se daria s nos captulos finais. Tive de antecipar. Percebi que Flix  um vilo merecedor de uma transformao pessoal, diz o autor Walcyr Carrasco, adiantando uma possvel redeno do personagem, que tem a conveniente desculpa de ser desprezado pelo pai. Na Central de Atendimento da Globo, Flix desponta como o personagem mais querido e comentado da novela. Carrasco conta que j teve uma prova direta dessa admirao: em uma loja de um shopping de So Paulo, foi abordado por duas vendedoras que diziam adorar o vilo. Quando o autor as lembrou de que ele tinha jogado um beb no lixo, elas deram de ombros: J esquecemos esse episdio.
     O mrito de Mateus Solano na construo de um personagem to ambivalente se confirmou na cena crucial. Foi uma atuao fsica, exagerada como devem ser exageradas as interpretaes de novela  mas na medida, sem uma nota falsa ou caricata. Estava previsto que, no meio do barraco, Flix quebraria uma cadeira, mas o ator foi alm. Deixei ele to livre que ele quebrou quatro, diz Mendona. Para Carrasco, o importante  que os improvisos no afetam seu texto: Mateus  um ator correto. Ele no bota caco.
     Depois de gravada a cena principal, a equipe puxou uma salva de palmas para a dupla Mateus Solano e Paolla Oliveira (que, na definio do ator, parecia uma leoa quando o derrubou no cho e o cobriu de tabefes). Trs convidados ao estdio se juntaram aos aplausos: eram produtores de um canal de TV francs que trabalhavam em um documentrio sobre as novelas brasileiras (com fins promocionais: o canal vai exibir Avenida Brasil). Amor  Vida ainda no esta  venda no mercado internacional, mas um clipe resumindo a trama foi feito s pressas para que os produtores o levassem consigo para Paris. No futuro, Flix talvez fale francs.


8#4 CINEMA  SEM RESPOSTA
Em Jovem e Bela, uma garota decide se prostituir. Por qu?

     Em um vero na praia, Isabelle (Marine Vacth) estuda perder a virgindade. Seu candidato  um rapaz alemo de quem ela nem sequer gosta: quando a me sugere que ela o traga para jantar, Isabelle descarta a ideia: No, ele  um idiota. E, no entanto, no seu aniversrio de 17 anos, ela transa com o alemo e v a si mesma enquanto o faz, como se estivesse fora de seu corpo. Feito, resume depois para o irmo, a quem prometera relatar a experincia. Jovem e Bela (Jeune & Jolie, Frana, 2013), j em cartaz no pas, pula para o outono, e Isabelle est no meio de outra experincia: ela decidiu se prostituir. De tarde, depois do colgio, encontra-se com sujeitos que pagam at 500 euros por uma hora com ela. Isabelle no faz nada com o dinheiro, s o guarda; sua famlia vive muito bem. Se os encontros lhe proporcionam algum prazer, ele no  do tipo que seja fcil discernir: quase sempre, sua fisionomia durante o ato sexual  de ausncia. Por que ento ela se prostitui? 
     Se existe uma resposta, no ser fcil encontr-la, postula o diretor Franois Ozon  que, com sua habitual agudeza de observao, retrata no apenas a inexplicvel atitude de Isabelle como tambm as vrias razes pelas quais os homens procuram prostitutas. Alguns por companhia, outros pelo sexo, e a maioria para poder tratar uma mulher como gostaria de tratar a todas. Depois de um programa particularmente humilhante, Isabelle chora. No foram seus sentimentos que saram feridos, mas seu orgulho; ela procura aprender e melhorar o desempenho.
     A certa altura, um incidente pe Isabelle na mira da polcia. A notcia do que a filha andava fazendo cai como uma bomba sobre a famlia. Os esforos para reabilit-la tm resultado discutvel. Sem poder fazer programas, ela tenta seduzir at o prprio padrasto com artimanhas de profissional. H algo, ento, que a prostituio oferece a Isabelle que nada mais pode lhe dar. Mas o qu? Em A Bela da Tarde, de 1967, o cineasta Luis Buuel tinha uma resposta na ponta da lngua: era o tdio de morte do casamento pequeno-burgus que fazia sua protagonista buscar uma emoo viva. J Ozon conclui que nada  to simples. Talvez em algumas pessoas o vazio no se crie, mas nasa com elas.
ISABELA BOSCOV


8#5 MSICA  PRAZERES DA PINDABA
A crise econmica americana no instigou o surgimento de novas canes polticas ou de protesto, mas o contrrio: o pop hoje s quer saber de sexo e balada.
SRGIO MARTINS

     A crise americana j se arrasta por cinco anos. H, sim, sinais de melhora, mas nada excepcionalmente animador. A taxa de desemprego de outubro ficou em 7,3%, e ainda se tentam medidas para estimular a economia. Em outros momentos difceis da histria americana  a luta pelos direitos civis ou a Guerra do Vietn,. por exemplo , a msica popular respondeu com canes de protesto, algumas sofrveis, outras antolgicas. Os artistas mais populares hoje nos Estados Unidos esto cantando sobre desempregados e gente que perdeu a casa? No. O tema deles  um s: sexo. Em Blurred Lines, hit das rdios americanas (e tambm brasileiras), o cantor Robin Thicke e seu convidado, o rapper Pharrell Williams, soltam um cafajeste eu sei que voc quer para seus objetos de desejo. Apesar da acusao de machismo que pesa sobre a dupla Thicke e Pharrell, a frase foi repetida em canes de duas mulheres, Rihanna e Nicki Minaj. Bruno Mars, outro popstar do R&B, compara o ato sexual a uma visita ao paraso na cano Locked out of Heaven. J o rapper Drake declara seu amor de maneira comedida mas um tanto possessiva em Hold on, Were Going Home: Voc  uma boa garota, eu sei / Voc se comporta de modo diferente quando est ao meu lado. Aparentemente, a mensagem que esses e outros popstars tentam passar  que nenhum problema  to grave que deva interromper a diverso na alcova.  uma espcie de hedonismo pop. A minha msica tem a mesma funo que um bom filme: ela serve para as pessoas relaxarem e se esquecerem dos problemas, disse Mars a VEJA.
     O hedonismo sempre foi uma sada em tempos de aperto. Mas as canes licenciosas costumavam trazer um tanto de indignao e contestao. Os cabars da Alemanha hiperinflacionria dos anos 1920 apresentavam shows libertinos, mas as letras tambm faziam stira poltica. No mesmo perodo, os Estados Unidos vivenciaram a criao do jazz, ento uma msica tocada em casas de prostituio, com muitas letras fesceninas. O contedo sexual que escandalizava puritanos seria herdado pelo rocknroll em seus primrdios, ainda que as letras tenham sido abrandadas para o consumo da plateia branca. Um exemplo: os versos o sol atravessa o seu vestido / eu mal posso acreditar em meus olhos: toda essa baguna pertence a voc, presentes em Shake, Rattle and Roll, de Big Joe Turner, sumiram na gravao de Bill Haley, roqueiro branco que popularizou o gnero.
     A nova cartilha do pop hedonista carece de sutileza. Nem duplo sentido h; s sobrou um, aquele. E no lugar da quebra de tabus, portanto, restou s o chamado para a balada. A libertinagem  sobretudo masculina. As herdeiras de Madonna so plidas e tmidas: por mais que se tente apiment-la, Katy Perry conserva sempre o jeitinho pudico, e aquela lngua endoidecida de Miley Cyrus no convence a ningum  at a licenciosidade das intrpretes do funk carioca  mais autntica. No feudo masculino, Bruno Mars  quem melhor personifica o popstar hedonista  ainda que as aparncias sugiram o contrrio, o arrumadinho Mars  mais indomvel que o bem casado Robin Thicke. J foi preso por porte de cocana e arrumou briga com o rapper Tyler the Creator, que esbravejou numa letra que desejava esfaquear Mars. Srio? Pega uma senha e entra na fila, rebateu o cantor. Mars tambm usa a msica para acertos pessoais: Money Makes Her Smile, uma das faixas de melhor apelo pop de Unorthodox Jukebox, seu ltimo disco, esculacha uma namorada aproveitadora  ele prprio, claro,  um romntico. como se v. 
     O pop inconsequente de Mars, Thicke & cia, mostra que a sociedade mudou muito no que diz respeito  sexualidade  o que no significa que tenha evoludo. A garotada que gosta do novo pop hedonista  filha da gerao que aplaudiu Madonna na escandalosa coreografia de masturbao em Like a Virgin, da turn Blonde Ambition  mas sua contraparte contempornea, a muito comentada esfregao de Miley Cyrus e Robin Thicke em um show da MTV, foi mais desorientada do que propriamente escandalosa. A liberdade descambou no mau gosto, na leviandade, no cafajestismo de cantores que elogiam os prprios (ateno para o eufemismo) dotes  como faz Pharrell na sua participao em Blurred Lines. No ser moralismo constatar que a crise no  s econmica.  tambm de valores. 


8#6 VEJA RECOMENDA
BLU-RAY
DESAFIO DO ALM (THE HAUNTING, ESTADOS UNIDOS/INGLATERRA, 1963. WARNER)
 O americano Robert Wise (1914-2005) dirigia que no era brincadeira: quando fazia fico cientfica, o resultado era O Dia em que a Terra Parou ou O Enigma de Andrmeda. Se o caso era musical, entregava coisas como Amor Sublime Amor ou A Novia Rebelde. Drama de boxe? D-lhe Marcado pela Sarjeta e Punhos de Campeo. Noir? O sensacional Terrvel Suspeita. E por a vai, numa lista de mais quarenta longas de competncia inatacvel e enorme criatividade. Wise j brilhara tambm no terror com O Tmulo Vazio, de 1945. Mas este Desafio do Alm  um caso  parte: um fabuloso exerccio de atmosfera que, das interpretaes de Julie Harris, Claire Bloom, Russ Tamblyn e Richard Johnson aos ngulos de cmera heterodoxos e jogos de luz e sombra, coloca o filme de casa assombrada em patamares difceis de igualar e que claramente foram a principal inspirao do diretor Sam Raimi para seu Evil Dead).

LIVROS
PETE TOWNSHEND: A AUTOBIOGRAFIA (TRADUO DE CID KNIPEL MOREIRA; GLOBO; 488 PGINAS; 49,90 REAIS)
 Principal compositor do quarteto ingls The Who, Pete Townshend sempre primou pelo estilo confessional. As canes que criou para o grupo refletiam sua inadequao, sua viso desiludida do mundo, suas descobertas religiosas e seus problemas com drogas e bebida. E  desses temas que ele trata, de forma mais direta, nesta autobiografia. O msico fala da infncia problemtica  viveu sob os cuidados de uma av cujos ndices de demncia e lascvia no eram prprios para uma criana , da criao do Who, da sua relao com outras bandas. Townshend tambm tenta esclarecer a acusao de pedofilia que pesou sobre ele em 2003, quando a polcia descobriu que seu carto de crdito fora usado em sites de pornografia infantil. Na parte musical, embora passe reto por muitos discos que o Who lanou nos anos 70, o guitarrista faz revelaes insuspeitas. Para ficar em um exemplo: uma pea do compositor barroco ingls Henry Purcell inspirou a criao de The Kids Are Alright.

HISTRIA DAS TERRAS E LUGARES LENDRIOS, DE UMBERTO ECO (TRADUO DE ELIANA AGUIAR; RECORD; 480 PGINAS: 165 REAIS)
 Autor de romances eruditos que se tornaram improvveis best-sellers, como O Nome da Rosa, o crtico italiano Umberto Eco, 81 anos, vem  se dedicando tambm ao que em ingls se chama coffee table books  aqueles livros vistosos prprios para enfeitar a mesa de centro da sala. Nesse gnero, j publicou Histria da Beleza, Histria da Feiura e A Vertigem das Listas. Este novo volume segue a mesma linha: no tem a profundidade terica de outros ensaios de Eco, mas  um compndio rico em informaes, complementado por uma iconografia deslumbrante e uma antologia de textos literrios de autores que vo de Plnio, o Velho, ao prprio Eco. O tema so as terras lendrias que j foram tidas por reais e inflamaram a ambio de viajantes e aventureiros  como o reino do Preste Joo ou o Eldorado.

OS MAIS VENDIDOS VEJA
 H vinte anos, o jornalista Marcel Souto Maior foi a Uberaba pedir autorizao a Chico Xavier (1910-2002) para escrever sua biografia. Descobriu um slido filo editorial: lanada em 2003, As Vidas de Chico Xavier vendeu 1 milho de exemplares. Com 18 milhes de brasileiros que se declaram espritas, o pas tem o maior nmero de seguidores da doutrina criada pelo francs Allan Kardec (1804-1869), agora objeto do novo best-seller de Souto Maior. Terceiro lugar na lista de no fico nesta semana, Kardec  A Biografia (Record; 364 pginas; 39 reais) descreve a transformao do educador Hippolyte Rivail, que decide investigar, a princpio com ceticismo, as mesas girantes, supostas manifestaes sobrenaturais populares em crculos endinheirados de Paris, e acaba saindo da experincia convicto da realidade de um mundo alm da morte. Com o nome Allan Kardec, ele organiza sesses nas quais mdiuns buscam estabelecer contato com os espritos. Souto Maior jura no ser esprita  mas sua biografia trai, sim, uma discreta paixo pelo kardecismo.
BRUNO MEIER

TELEVISO
ALMOST HUMAN (ESTREIA NESTA QUINTA-FEIRA 28, S 22H25, NO WARNER CHANNEL)
 Com apenas dois episdios j exibidos nos Estados Unidos, esta srie da produtora de J.J. Abrams e criada por J.H. Wyman, responsvel pela j encerrada Fringe, est ainda tateando  procura de um caminho, mas demonstra promessa. Em 2048, com o crime fora de controle, as autoridades de Los Angeles decidem que todo policial humano dever ser acompanhado de um agente sinttico  rob concebido para ser obediente s regras e desprovido de emoo ou capacidade de aprender com suas experincias. Como, porm, o detetive John Kennex (o simpatico Karl Urban, o Bones de Star Trek)  um ser humano sui generis, ter direito a um rob tambm ele singular: Dorian (Michael Ealy), que estava desligado havia quatro anos porque sua capacidade de sentir, deduzir e evoluir o torna um tantinho imprevisvel demais. Almost Human acerta em cheio na escalao da dupla: Urban e Ealy tm tima qumica e entram com facilidade nos seus papis de opostos complementares o rob sensvel e perceptivo e o homem sem muito jeito para as relaes humanas. Agora s falta resolver a questo da trama, ainda muito genrica.


8#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. A Culpa  das Estrelas.  John Green. INTRNSECA
2. A Casa de Hades. Rick Riordan. INTRNSECA 
3. Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
4. O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA
5. Inferno.  Dan Brown. ARQUEIRO 
6. A Esperana. Suzanne Collins. ROCCO
7. O Silncio das Montanhas.  Khaled Hosseini. GLOBO
8. Jogos Vorazes. Suzanne Collins. ROCCO
9. Quem  Voc, Alasca?. John Green. MARTINS FONTES 
10.   O Chamado do Cuco. Robert Galbraith (J.K. Rowling). ROCCO 

NO FICO
1. Nada a Perder 2. Edir Macedo. PLANETA DO BRASIL
2. 1889. Laurentino Gomes. O GLOBO 
3. Kardec  A Biografia. Marcel Souto Maior. RECORD
4. Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA 
5. Eu Sou Malala. Malala Yousafzai. COMPANHIA DAS LETRAS 
6. Carlos Wizard  Sonhos No Tm Limites. Igncio de Loyola Brando. GENTE 
7. A Filosofia Explica as Grandes Questes da Humanidade. Clvis de Barros Filho e Jlio Pompeu. CASA DA PALAVRA.
8. 1822. Laurentino Gomes. NOVA FRONTEITA
9. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Mundo. Leandro Narloch. LEYA BRASIL
10. O Livro da Psicologia. Nigel Benson. GLOBO

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs.  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. Casamento Blindado.  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
4. O Mtodo Dukan  Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER 
5. O Monge e o Executivo.  James Hunter. SEXTANTE
6. Terapia Financeira. Reinaldo Domingos. DSOP
7. Receitas Dukan. Pierre Dukan. BEST SELLER 
8. Eu Me Chamo Antonio. Pedro Grabriel. INTRNSECA
9. Crianas Francesas No Fazem Manha. Pamela Druckerman. FONTANAR
10. Quem Me Roubou de Mim? Fbio de Melo. PLANETA


8#8 J.R. GUZZO  ALGO EST ERRADO
     Alguma coisa deu terrivelmente errado com o Brasil de hoje. S pode ser isso: com o dramtico incio do cumprimento das penas pelos condenados do mensalo, nessa feia penitenciria da Papuda, a corrupo na vida poltica brasileira deveria estar na defensiva. Se os principais chefes do partido que manda no Brasil h dez anos foram para a cadeia, o lgico seria esperar mais cautela dos bandos que operam nos escales inferiores: afinal, se a impunidade de sempre falhou at com a turma que est no topo da rvore, poderia falhar de novo com qualquer um. Uma retrao geral da roubalheira, nessas circunstncias, teria de estar acontecendo em todo o territrio nacional. Mas os fatos mostram exatamente o contrrio: justo agora, com Papuda e tudo, est no ar um espetculo de corrupo macia, sistemtica e rasteira na prefeitura de So Paulo, envolvendo possveis 500 milhes de reais em prejuzos para o pblico, duas administraes e fiscais que chegavam a ganhar 70.000 reais por semana desviando dinheiro do ISS municipal. Mas essa turma toda no deveria estar com medo do ministro Joaquim Barbosa? No teria de parar um pouco, pelo menos durante estes momentos de mais calor no Supremo Tribunal Federal? Sim, sim, mas est acontecendo o contrrio  rouba-se mais, e no menos. Que diabo estaria havendo a?  uma disfuno do sistema, parece que o programa no est mais respondendo.
     Sem dvida, vive-se no Brasil de hoje um momento todo especial. De todos os instrumentos conhecidos para fazer concentrao de renda, poucos so to selvagens quanto a corrupo: lideranas que se colocam na vanguarda das causas populares, como se diz, deveriam, para merecer algum crdito, ser as primeiras no combate a essa praga. Mas no foi possvel notar, quando esse ltimo escndalo estourou, a mnima preocupao do mundo poltico oficial com os fatos denunciados  como se 500 milhes fossem um mero trocadinho, coisa para o juzo de pequenas causas, talvez, ou algo a ser tratado como um empurra-empurra em escales inferiores. A reao do maior lder poltico do pas, o ex-presidente Lula, e das cpulas do PT resumiu-se a uma nica questo: como evitar que o ex-prefeito de So Paulo Gilberto Kassab, que se estranhou no episdio com o seu sucessor petista, Fernando Haddad, crie problemas para a candidatura  reeleio da presidente Dilma, em 2014. Afinal, trata-se de um aliado  e aliados esto acima de tudo para a governabilidade da nao, tal como ela  vista no partido do governo. Foi precisamente por a, na verdade, que se chegou at aqui: de apoio em apoio, de acordo em acordo, de negcio em negcio, Lula e o PT tornaram-se iguais s foras polticas que mais combateram quando eram oposio, e que sempre denunciaram como as grandes culpadas pelo atraso, pobreza e injustia do Brasil. Ao fecharem os olhos  corrupo e a outras taras que degeneram a vida pblica no pas, e ao descartarem como moralismo toda e qualquer denncia contra a imoralidade, criaram os corvos que hoje os perseguem. Nada mais merecido, para quem adotou essa opo, do que ver na cadeia Jos Dirceu e Jose Genoino, suas figuras histricas e astros do mensalo  e em plena liberdade, com sua vida poltica cada vez melhor, os Sarney e os Collor, os Maluf e os Calheiros, inimigos de ontem e scios de hoje.
     No era assim que estava programado.
     ***
     H personagens que nos presenteiam com momentos de grande conforto. O ex-presidente Harry Truman, dos Estados Unidos, at hoje o nico ser humano a utilizar armas atmicas em guerra,  um deles. Depois de deixar a Presidncia, como lembra um relato que tem circulado no mundo digital, recusou todas as ofertas financeiras que recebeu das grandes empresas americanas para exercer cargos de diretor, ou consultor, ou membro do conselho, ou qualquer atividade paga por elas. Vocs no querem a mim, dizia Truman, certo de que ningum estava interessado em pagar para ouvir suas ideias, conhecimentos ou lies. Vocs querem a imagem do presidente. Isso no est  venda.
     O ex-presidente Lula, e antes dele Fernando Henrique, e antes de ambos Bill Clinton, e depois dos trs a presidente Dilma Rousseff e o presidente Barack Obama, tm todo o direito s fortunas que j ganharam ou vo ganhar das maiores corporaes do mundo com suas palestras. Mas do direito, tambm, a que se faa uma pergunta: do ponto de vista da decncia comum, qual das duas posturas parece ser a mais bonita?
     Valeu. Mr. Truman.


